Em 1974, o ocenólogo Lauro Barcellos deu início a um trabalho institucional de reabilitação dos animais marinhos enfermos e debilitados, os quais encontrava e resgatava ao longo da praia arenosa do Rio Grande do Sul.

Neste mesmo ano, começava a estudar Oceanografia na Fundação Universidade Federal do Rio Grande e paralelamente trabalhava como voluntário no Museu Oceanográfico, do qual hoje é o Diretor.

Desde o início deste trabalho, contou sempre com o apoio do Professor Eliézer Rios - Diretor Fundador do Museu Oceanográfico - de seu colega de trabalho Sr. Rodiney Nascimento e de médicos amigos que ofereciam ajuda e conhecimentos para tratar os animais marinhos que resgatava no litoral do Rio Grande do Sul.

"Eu ficava muito chocado ao encontrar os animais morrendo na praia, sendo que na sua maioria por situações criadas pelo homem - emalhados em redes e em pedaços de plásticos, cobertos de óleo, baleados, fisgados por anzóis e ainda vivos, enrolados em fios de monofilamento de nylon, etc. Muitas pessoas naquela época não entendiam minha atitude, várias vezes me falavam que eu deveria deixar os animais morrerem na praia, pois eles eram seres que viviam naquele ambiente; era muito difícil ouvir estas considerações", afirma Lauro Barcellos.

O oceanólogo não concordava com o pensamento daquelas pessoas, achava sempre um absurdo não tomar alguma atitude perante uma barbaridade daquele tamanho.

Seus deslocamentos por esta praia começaram desde a infância e até hoje lhe causam grande alegria e uma imensa satisfação de poder estar perto deste mar repleto de paisagens e vida.

Eram e ainda são, focas, lobos e leões marinhos, pingüins, albatrozes, petréis e gaivotas, tartarugas, orcas, golfinhos e toninhas, às vezes animais dos banhados, tais como: flamingos, lontras, capivaras, ratões e várias espécies de aves continentais que foram encontrados pelo ocenólogo e sua equipe, enfermos ou debilitados, necessitando de ajuda para sobreviverem.

Esta grande variedade de animais, na maior parte das vezes são vítimas da ação covarde e irresponsável do homem.

Baleados por armas de fogo, contaminados por óleo e outros produtos químicos jogados na natureza, ingestão de plástico sob diferentes formas, mutilados e emaranhados em redes de pesca, mutilados também pelos hélices dos barcos, alguns inclusive presos em embalagens de madeira ou plástico.

"Esta situação sempre me causa grande indignação e por conta disso, mantenho esta atitude em favor destes animais", afirma mais uma vez Lauro Barcellos.

Em 1995, o veterinário Rodolfo Pinho da Silva e a oceanógrafa Andréa Adornes, começaram a se interessar pela proposta do oceanólogo e foram fazer parte da equipe do CRAM, que naquele momento estava recebendo o apoio do Ministério do Meio Ambiente através do Fundo Nacional do Meio Ambiente que ajudaram a construir instalações adequadas aos trabalhos de reabilitação de animais marinhos. Assim, hoje é possível trabalhar em ótimas condições: com áreas para despetrolização de fauna, tanques para reabilitação de animais, sistemas hidráulicos adequados, água quente em abundância, medicamentos, materiais para resgate e imobilização de animais.

Este local adequado, bem equipado e todo o trabalho foi denominado de Centro de Recuperação de Animais Marinhos - conhecido por CRAM - infelizmente as ocorrências não diminuíram ao longo deste tempo de 34 anos.

É certo que hoje há muito mais interação com a comunidade, que nos avisa sobre as ocorrências, também os meios de comunicação e os jornalistas fazem um trabalho fundamental de divulgação e monitoramento, mas também é certo que hoje os impactos ao meio ambiente são maiores, acarretando cada vez mais problemas para os animais de vida livre.

"Acreditamos que além de salvar os animais, estamos educando as pessoas para uma convivência mais equilibrada com a natureza."

O CRAM, anexo ao Museu Oceanográfico, pertence também a Fundação Universidade Federal do Rio Grande - FURG - no Rio Grande do Sul, desde o ano 2000, recebe um apoio muito importante da PETROBRAS.

Esta parceria é fundamental e viabiliza a ação nacional e internacional das equipes do CRAM. Para tanto, são mantidas equipes em prontidão para entrarem em ação em qualquer momento que se faça necessário e também são oferecidos vários cursos de capacitação de pessoal, para atuarem em acidentes que envolvam derramamentos de óleo e contaminação de fauna. Desta maneira, é possível habilitar um contingente significativo que está devidamente preparado para atuar em emergências ambientais, em vários estados do Brasil.

Também foi concebido para a PETROBRAS, um projeto que viabilizou a construção de Unidades Móveis de Despetrolização de Fauna. Estas unidades, compostas cada uma por dois contêineres equipados, apóiam os serviços de despetrolização de animais em qualquer lugar que o acidente venha a ocorrer, permitindo assim, uma ação precisa e eficiente.

Salvar animais marinhos é uma missão que também é assumida por outras pessoas em vários lugares do mundo. Aqui no Rio Grande do Sul foi muito difícil começar este trabalho, porque aqui é também um lugar onde existem muitos caçadores, tanto que, há 20 anos, ainda se viam pelas rodovias, carros carregando e exibindo fieiras de aves mortas como troféus em suas laterais.

"Hoje, temos leis, que protegem a vida e o meio ambiente, porém ainda é preciso educar muitas pessoas que vivem fora da realidade. Precisamos fortalecer os sistemas de fiscalização que impedem a dizimação da vida e precisamos investir mais na educação das futuras gerações", finaliza o oceanólogo Lauro Barcellos.

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